sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Na verdade, acho que a vida é um filme.
E nós, os atores principais.
O tempo todo estão nos filmando.
O bom disso, é que cabe a nós, e somente a nós,
a escolha do gênero do filme.
Comédia, drama, terror.
É estranho, mas não irreal.
Essa autonomia que o mundo nos cobra é assustadora,
e quando nos deparamos com algo que depende apenas de nós,
nos rendemos ao medo.
Nos esquecemos que não somos somente atores,
mas também diretores, produtores, autores.
Cabe a nós, portanto, escolher o fim da trama.
Cada escolha direciona nossa história para um determinado fim.
Por isso, é preciso muito cuidado com cada escolha,
para que o fim desejado não seja totalmente contraditório ao contexto.
Por falar nisso, me dêem licença.
Vou parar por aqui, pois estou no ar.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Era engraçado como agora ele via tudo de outro modo.
A vida toda assombrou-se com medo da solidão.
E quando ela finalmente chegou,
percebeu o quão saborosa ela poderia ser.
Entendeu que a felicidade estava ali o tempo todo.
Esperando ser encontrada.
Na solidão.
Nela era possível desprender-se das máscaras.
Ser ele mesmo. Sem medo do que iriam pensar.
Sem medo de errar, de ferir, ou ser ferido.
A solidão trazia consigo a paz que ele sempre procurou.
Trazia a certeza da felicidade íntima e verdadeira.
A certeza de que ele não estava só.
Mesmo na solidão.

sábado, 22 de agosto de 2009

Não, nenhum dia é igual.
E talvez o maior problema é acreditar que nunca iremos mudar.
Desejos e sentimentos mudam constantemente
e você precisa se acostumar com isso.
Ontem você poderia ser o dono do mundo
Hoje já não passa de um andarilho mendigando atenção.
Talvez você queira sair correndo pela rua.
Talvez não.
E você precisa se acostumar com isso.
Talvez nada seja melhor do que sair do trabalho
e ir pra praia sozinho. De terno mesmo!
Talvez isso seja um saco.
E você também precisa se acostumar com isso.
Talvez você não tenha acordado muito bem hoje.
Talvez acordou distribuindo sorrisos.
É preciso se acostumar com isso.
Pois, enquanto acharmos que somos padrões,
Talvez não seremos totalmente felizes.
Talvez.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

A porta do elevador se abriu com aquele estalinho peculiar.
Hesitei um pouco antes de entrar.
Talvez não seria bom dividir o elevador com 5 pessoas
que vinham do subsolo.
Por fim, entrei, espremendo-me naquele calor humano
que poderia facilmente encubar vírus de todos os tipos de gripe.
Quando a porta se fechou, e meu subconsciente treinado pela mídia já
começou a querer o álcool em gel guardado na bolsa como se fosse um escudo,
percebi que aquela viajem claustrofóbica me reservaria alguns momentos de distração.
O nerd gordinho de óculos e barba rala do 5º andar
olhava de uma maneira sensualmente convidativa para a loira do 6º!
Antes que eu pensasse qualquer maldade, ele disse à loira,
ignorando totalmente os outros presentes:
- E o Michael, hein?
"Maicon?" pensei abismado!
Mas antes que eu completasse o pensamento, a loira me ajudou.
Depois de olhar para os lados verificando se o questionamento
era dirigido à ela, disse:
- Que Maicon?
- O Jackson. Coitado.
- É. (cara de abismo).
Silêncio.
Seria aquilo uma cantada?
Não pode ser possível alguém achar que vai conquistar uma mulher
falando sobre Michael Jackson!
Falasse sobre temas mais atuais, gripe suína, quem sabe.
Mas Michael Jackson?
Novamente cortando meus devaneios, fui atingido por um golpe no estômago:
- O que você vai fazer a noite?
É. Talvez o nerd gordinho fosse bem direto!
Nesse momento, as 4 cabeças (inclusive a minha) passavam do nerd
para a loira como num jogo de tênis.
- Tenho que limpar a casa.
E olhou para o painel com cara de poucos amigos.
As 5 cabeças (inclusive o nerd) olharam para baixo.
A porta se abriu no meu andar, e uma lufada de ar puro
me convidou ao alívio.
E, antes de fazer qualquer coisa,
tirei meu potinho de álcool gel da bolsa.
Vai saber.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Ele já sabia o que fazer quando a rotina o chamava.
Ao vestir o uniforme sujo, ia se despindo de si mesmo.
Era como se o uniforme o lavasse.
O perdoasse. O escondesse.
Deixava para trás as brigas com a esposa,
a resposta mal dada à filha na noite anterior,
o desentendimento com o vizinho.
Nada mais impotava.
Não era mais ele ali.
Aquele uniforme sujo tinha o poder de tranformá-lo
no que ele sempre quis ser.
E ao fim do dia, ao retirar o uniforme,
sentindo-se muito mais leve,
percebia o quanto sua vida era maravilhosa por ser como era.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

O "pra sempre", meus amigos, não existe.
Nossa vida é uma eterna revolução de idéias e momentos.
Somos gotas de chuva, que nunca se repetem.
Somos plantas que se alteram a cada nascer do sol.
O que somos hoje não é o que fomos, tão pouco o que seremos.
Como podemos então gostar, sentir ou amar pra sempre?
O verdadeiro amor, é aquele que sabe reinventar a forma de amar.
É aquele que tem consciência que nunca mais seremos como agora.
Ele caminha ao lado das diferenças e mudanças, e as entende.
E nos abre caminho para o "pra sempre".
Que existe.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

O que ele achava mais engraçado era a forma como as pessoas o olhavam.
Divertia-se com o fato de que,
talvez aqueles que o olhavam com pena teriam muito menos do que ele.
Passavam apressados todos os dias pelo mesmo caminho.
Ele já até esperava pela menina de cabelos vermelhos e de tênis cinza,
pela dona-de-casa que comprava pão às oito da manhã,
pelo senhor de óculos que quase sempre perdia o ônibus.
Todos eles, mesmo passando por ali todos os dias,
nunca sequer perceberam a margarida solitária que nascera no meio fio,
as folhas novas que nasciam nas árvores, secas durante todo o inverno,
o ninho que aconchegava 4 ovinhos brancos em cima do poste.
Tinham tanto o que fazer,
e não tinham tempo de perceber que a vida acontecia.
Ele porém, apesar de não ter dinheiro para comprar pães às oito da manhã,
ou não precisar correr para pegar o ônibus,
sabia que não podia perder tempo se queixando,
pois a vida acontecia, todos os dias, à sua volta.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Nunca achei que uma criança me faria parar pra pensar como naquele momento.
- Tio, o que te faz feliz?
Fiquei por alguns instantes em silêncio.
Apenas olhando para seu rostinho gordo, sorrindo para mim.
Ora, era só uma criança, o que saberia sobre ser feliz?
- Bom, acho que muitas coisas me fazem feliz. É meio complicado, não sei dizer agora!
Querendo acabar com aquele assunto logo,
resolvi passar a bola pra ela.
- E você? O que te faz feliz?
E foi ai que, olhando fundo em meus olhos, ela disse:
- Brincar com você, e com meus amiguinhos.
Sua sinceridade foi como uma facada em meu peito.
Como eu poderia ser tão tolo?
Me preocupei em achar a felicidade de muitas maneiras,
e esqueci que o que eu buscava não existe.
O que existem são momentos.
Simples assim!

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

- Bom dia, você tem trufa de morango?
- Bom dia! Temos sim!
Olhei para os lados para ver o motivo do plural. Só tinha aquela vendedora na loja, nem um gerente, ninguém. De certo ela sofria de dupla personalidade, coitada. Reprimi os pensamentos e percebi que ela ainda falava comigo com a trufa nas mãos.
- E o bom é que essa promoção vale até o fim do mês! (sorriso)!
Olhei atordoado alguns instantes para a pequena vendedora com sorriso-colgate-extra-white, e pensei o quanto eu tinha perdido da conversa.
- Promoção? Que promoção?
- Do Luccas Brothers, senhor! Comprando 5 trufas de morango o senhor concorre a uma tarde recreativa com a banda, com direito a um acompanhante! (sorriso)!
- Não, obrigado, só quero uma trufa mesmo.
- Tem certeza senhor? Essa promoção é exclusiva da nossa loja. Vamos aproveitar! Porque o senhor não leva uma trufa pra namorada, pra sua mãe, dia dos pais chegando, ein? Que tal?
- Olha, eu sei que é seu trabalho, mas eu não estou interessado em comprar cinco trufas, muito menos em me recrear com luccasbrothers. Só quero uma trufa, e só! Tudo bem?
- Pense bem senhor, temos também as deliciosas castanhas cobertas com chocolate ao leite, com gostinho de menta-eucalipithol que derrete na boca ao morder. É uma delicia.
- Olha aqui - olhei para seu crachá com a foto-sorriso-colgate-extra-white estampada - Marcela, eu passo aqui na frente todos os dias, e hoje me deu vontade de comprar SÓ uma trufa de morango. Só isso, se não for pedir demais!
- Tudo bem senhor! O senhor não precisa se exaltar, senhor!
Ela percorreu o pequeno caminho até o caixa, com a trufa rosa brilhante nas mãos.
- Uma trufa de morango então. Tudo, então, fica dois e quarenta e cinco senhor!
Na minha opinião, o "tudo" devem ser todos os ingredientes da trufa! Mas nesse momento eu já nem me importava mais. Peguei uma nota de dois, e uma moeda de cinquenta centavos e a entreguei.
- O senhor tem cinco centavos senhor?
Porque ela insistia tanto em me chamar de senhor no começo e no fim das frases?
- Não, não tenho!
- Bom, então vou ter que dar o troco em balas de hortelã, que também concorrem na promoção do Luccas Brothers, tudo bem senhor?